sábado, 29 de maio de 2010

saia

saia menina
saia
a saia
a saia da menina
em verso
em prosa
saudosa
a saia, a rosa
a saia rosa da menina dourada
amada
calada
tímida na sua pureza pálida
palo acima
palavras ocas
difundidas pelo dom de ser
amada
calada
amada amante
tão calada
insinuante
saia
pelo portais que levam adiante
saia logo
fulgurante
és poema, um soneto
tão descrente
tão sofrível
tão incrível é o sofrer
de renascer, de padecer
saia
de meu outrora coração enamorado

terça-feira, 13 de abril de 2010

ósculo

desapropriando a solidão
através dos suspiros de amor
surgiu no universo
algo chamado beijo

nasceu retraído
entre panos tabus
mas depois difundiu-se
nos momentos corais
e no simples ato de amar
tornou-se um grande ator
de tablados planetários
de telinhas e telões
beijo e sigo assim amando
agarrado aos lábios teus

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

sossego

o leito vago do lado esquerdo
é sinal de saúde temporária
pois há tempos e ventos
já não dança tão contente
nos compassos desse liberdade
que não pretendo ostentar

o aperto incômodo do qual me livrei
era o foco do anseio
que no leito cochilava,
sem valorizar as horas que zelei
que cuidei-lhe coberto
por panos e olhos

sábado, 19 de dezembro de 2009

cataventos

vem assim,
mesmo que não se entregue
seu torpor me faz vivente
e desse jeito tão seu
só aproveito o que convém
ao impulsionar os cataventos
de meu peito que não bate
e se bate, bate apenas
pra te ver sorrir de novo

domingo, 13 de dezembro de 2009

acondicional

no insucesso da feroz vivência
o conflito interno só faz intensificar
as nódoas clássicas
do tráfego andante de um mundo incapaz
de apartar-me de injúrias

tiro de mim, o amargo e inútil
cansaço da alma, do corpo tombado.
Sangue que só carrega mágoa
e que ainda há de me consumir
afogar do vácuo da vida cruel

ah, moça! ainda que me entendas
com seus olhos imóveis e desatentos
não fará de mim contente
serei bambo intensamente
e na utopia encostarei

domingo, 15 de novembro de 2009

ensaios

a minha grande arte
me faz reger transformações
me tomba a planilhas
e me obriga a saber
que nada se cria ou se destrói.

vejo através de medidas e vidrarias
o que ditaram-me do tablado
vejo entre chamas e solutos
os quilômetros de histórias
que estão no controle
de meus sentidos treinados.

sou vassalo aos perigos
escravo do que já nasceu
obsecado pelo que é novo
e de novo vou buscar sintetizar.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

suas mãos

dê-me suas mãos
não me encare desse jeito
sou movido ao tédio bom
de viver sempre ao teu lado
sem cansar das tuas belas canções
sem chorar pelas distâncias temporárias
a que me fatalmente submetes.

ouve o que lhe digo
e mesmo que não acredite
supere paranóias e crises desconfiadas
faça das críticas, conselhos bons, amor
e não se esqueça de sorrir
por mais que vá sob tristeza.
dê-me suas mãos
como um sinal de despedida
encare-me ou não
dê-me suas mãos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

surrealismo horizontal

olha!
e vê que esse céu ainda é meu
que mesmo passados tantos verões
flambam suas miragens
no horizonte libertino

sente!
e percebe que o que sinto
é seu de direto, posse irrevogável
que sou réu por ter pecado
ao render-me em seu brilhar

vejo rosas, margaridas
flores do campo, diversas
que num simples desabrochar
dão contorno a um realismo surreal

domingo, 25 de outubro de 2009

moça dourada

na barra da saia
da moça dourada
encaixavam-se lindas curvas
andantes e amantes
dos olhos viventes
acompanhadas por feiras e ruelas inteiras
erosivas aos pés sapateiros
alheias às magoas instantes

e vem com cheiro de flor
deixando sua fina linha de sedução
capilar, perfumeira
anelar à indiferença
de uma moça que dourada
não barrava olhares não

domingo, 11 de outubro de 2009

guerrinha

a guerra é fria
como bazuca em geladeira
onde as miniaturas aguardam congelando
o combate que não esquenta
e estão armados
com bombinhas e balinhas
em canudos coloridos
ansiosos nas suas posições
aguardando um sinal pra lançar
suas bolas de gude no inimigo
e eles vão, e vão correndo
tropeçando em sua botinas
preparados pr'o ataque
mas a guerra não esquenta
ela é fria
a guerra é fria
como um bloco de sorvete

domingo, 4 de outubro de 2009

essência

a categoria da minha essência
é modelada a intuitos vãos
é regada aos seus devaneios
e tratada em altar cristão

a categoria da minha essência
faz-me rir como contente arlequim
faz-me andante, vagabundo
e satisfeito, assim, sereno e só

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

carioca

entre os velhos e poirentos livros
seus gestos delicados desviaram-me o foco.
eram ruelas centrais de um bairro nobre
e passavam das doze num rastro de sol.
quantos livros desprezados passaram por suas mãos?
cinco histórias de Machado e a República Platão.

entreolhos
entreatos
entre contos temporais
entre barracas cor de creme
persegui-lhe com o ardor
que num breve desatento
se avoou tardes adentro
me restando a companhia
da poeira que ascendia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

olhos

o que quero dos teus olhos
é fazê-lo um estar de graça
sim, transformá-lo num clarão
feito em fagulhas copiosas
capazes de me cegar.
e, cego de terror, o que mais meus olhos pedem?
se num lapso racional
não mais rumo ao teu encontro
ou se rumo não me entrego
ou se entrego não sou íntegro
e pela metade não me encontro.

já nem sei quando sorrir
ou se sorrir me é aceitável
pois no seus oblíquos olhos
os meus não me entendem
ou se entendem não me avisam, não sei
não vejo um nexo ao traçado
e sigo, assim, cobrindo espaços
com gotículas salgadas vindas
dos olhos perdidos no brilho dos teus.